
Cheguei ao colégio passando pelo portão. Me virei e dei uma olhada de rabo de olho pra trás, mas Joshep não estava lá. Para falar a verdade, não tinha ninguém em lugar algum.
Sentei em um banco e fui á procura do meu horário. História sala 201.
– Ah! Muito bem – murmurei para mim mesma – primeiro dia de aula, com a pior aula.
Sempre odiei história, é a pior matéria que existe, é um pé no saco, eu nunca entendo nada e depois tenho que passar madrugadas lendo apostilas e livros pra entender a matéria. E no outro dia fico com cara de zumbi na aula por não ter dormido direito.
Sai andando pelo colégio procurando a secretária, para poder perguntar onde ficava a sala 201.
Dentro do colégio também estava tudo muito quieto e assustador.
Entrei na secretaria e ouvi o soar do sino em cima da porta.
A secretaria é que nem uma secretaria normal, não tem nenhuma grande diferença das secretarias do Brasil. Tem um balcão de madeira com pedra em cima, alguns sofás e cadeiras, um computador e uma secretária atrás do balcão.
A secretária tinha uma cara simpática e aparentava uns 45 anos, com o cabelo preso em um coque desgrenhado, com algumas rugas na testa.
– Bom dia! – ela disse empolgada e sorrindo. Tirando o rosto da tela do computador e olhando pra mim.
– Bom dia – respondi não tão empolgada quanto ela – você pode me dizer onde fica a sala 201, por favor?
– Claro, fica nesse corredor ao lado – ela disse apontando com o dedo para a direita.
– Obrigada – agradeci e fui rumo ao corredor da direita, que foi onde ela disse que ficava minha sala.
Em um lado do corredor havia infinitos armários esverdeados enfileirados e do outro, enormes janelas de vidros que davam vista para um enorme gramado.
Cheguei a frente à porta da sala e bati nela esperando que alguém a abrisse.
– Chegou atrasado – ouvi uma voz masculina não conhecida dizer, enquanto a porta se abria vagarosamente.
Não que esperava saber quem era, acabei de chegar nessa cidade, portanto não conheço ninguém além do meu “amigo” Joshep e do seu velho pai.
– Desculpe-me – eu já fui dizendo, antes mesmo de ver quem era – é que eu não sabia onde ficava a sala e tive que ir até a secretaria pra perguntar e...
A porta se abre totalmente, fazendo com que eu pare de falar no mesmo instante. Vejo um homem mais ou menos de uns 46 anos, provavelmente o dono da voz que eu não conhecia.
– Ah, foi por isso? – ele disse me olhando com uma cara engraçada. Será que tinha alguma coisa no meu dente? Ou será que era meu cabelo?
– Deve ter sido alguma coisa que alguém disse na sala – disse para mim mesma, claro que não foi em voz alta porque se fizesse isso o cara ia achar que eu era doida.
– Então tudo bem pode entrar – ele disse.
– Obrigada – murmurei e fui entrando na sala, porém o cara entrou na minha frente. De novo.
– Espera, você é nova aqui, não é? – ele me perguntou, ainda tampando a porta.
– Sou – murmurei novamente, já me irritando com aquele cara tampando a entrada da sala.
– Ok, então pode entrar – disse o homem – meu nome é Thomas Fletcher.
– Ah, o meu é... – disse estendendo a mão para cumprimentá-lo, mas fui interrompida.
– Demetria – ele disse me fazendo levar um susto – Demetria Devonne Lovato.
Como assim? Como ele sabe meu nome sem nem mesmo eu dizer? Será que ele é um ET ou algo do tipo? Até que seria legal se ele fosse um ET...
– Como você sabe? – gaguejei com a boca e os olhos arregalados.
– Eu sempre sei de tudo – ele disse com um ar sombrio, porém logo relaxou ao perceber minha cara assustada – além de que eu tenho a lista de chamada, na qual mostra o seu nome, idade e coisas do tipo entende?
– Hã... Entendo – disse ainda um pouco assustada. – será que agora eu posso entrar?
– Claro, pode entrar Demetria – Thomas disse saindo do rumo da porta e me deixando passar.
Finalmente.
– Ah me chame de Demi.
Fui entrando na sala, sendo empurrada por Thomas.
A sala não é muito grande, cabem no máximo umas 40 cadeiras, cuja apenas duas estão desocupadas.
Fiquei um tempo em pé na frente da sala ao lado dele devaneando, pensando no garoto que conheci na padaria, cuja camiseta era igual a minha. Falando nele, até agora eu não o vi. Ele disse que estudava aqui não é mesmo?
– Gente, essa aqui é Demetria, ela é nova aqui – disse Thomas enquanto eu dava uma cotovelada nele por ele ter me chamado pelo meu nome. – Ou melhor, Demi.
Continuei ali estática só sentindo meu rosto corar.
– Ok, então pode ir se sentar em qualquer uma das duas cadeiras vazias – Thomas disse rindo da minha cara e me dando leves tapinhas no ombro.
É engraçado como, apesar de conhecê-lo há apenas 5 minutos, já me senti como se conhecesse ele há anos, a ponto de fuzilá-lo com os olhos e ele a ponto de me empurrar, me dar tapinhas e cotoveladas.
Olhei para frente e vi as cadeiras vazias, uma estava perto de uma loira e a outra estava perto de uma menina muito negra.
Hesitei e fui rumo á cadeira perto da garota negra, obviamente para não sentar perto da loira com cara de metida. Não que eu julgue as pessoas pela aparência, é só que acho melhor não sentar perto dela.
– Ela vai sentar perto da aberração! – ouvi alguém dizer e quando me virei me deparei com a mesma loira metida apontando o dedo para mim.
– Não chame as pessoas de aberração Taylor! – repreendeu Thomas enquanto mexia em alguns papéis que estavam sobre sua mesa.
Olhei para a garota loira, ou melhor, Taylor, com cara feia e me sentei na cadeira ao lado da garota negra.
– Oi – disse para a menina negra esperando resposta, mas ela não disse nada, apenas se encolheu e ficou prestando atenção no professor. Ela parecia a única pessoa interessada na aula, o resto estava olhando para mim e para Taylor.
– Bom, com isso concluo a aula de hoje, podem sair – disse Thomas enquanto toda a turma guardava seus materiais.
– Ei, por que você não se sentou do meu lado? – ouvi Taylor me dizer, enquanto me cutucava que nem uma doida – Por que você preferiu sentar perto da aberração?
– Na verdade – eu disse enquanto tirava os dedos magrelos de Taylor dos meus ombros – eu prefiro sentar perto dessa “aberração” – fiz aspas no ar ao dizer a palavra aberração – do que sentar perto de você, senhorita Hitler.
– Meu nome é Taylor Swift e não Hitler. Sou capitã das líderes de torcida, todo mundo quer sentar perto de mim. – disse ela com aquela cara magrela ficando vermelha de raiva enquanto eu tentava conter um riso abafado na minha blusa.
Acabei de concluir que Taylor é do tipo: loira, líder de torcida, magrela e burra que nem uma porta. Quem nesse mundo não sabe quem é Hitler? Meu Deus todo mundo sabe quem foi Hitler.
– É mesmo? Você é capitã das líderes de torcida? – eu disse com cara de sarcasmo contendo uma risada, o que só fez Taylor ficar com o rosto mais vermelho de raiva – E eu com isso? Não estou nem ai se você é líder de torcida, muito menos se as pessoas querem sentar perto de você ou não, só sei que eu não quero. – disse sentando de volta e cruzando os braços.
– Aberração – ela disse me empurrando e pegando seus materiais todos nojentamente rosas.
Odeio rosa.
Corri até a porta e gritei para Taylor:
– Ah e só pra você saber, Hitler era um alemão preconceituoso que tentou dominar a Alemanha e o mundo matando negros, gays, judeus e vários outros tipos sociais, raciais, religiosos e nacionais. Ele dizia que esses grupos eram inferiores a ele. Daqui a pouco você vai estar igual a ele se começar a chamar as pessoas de aberrações, tome cuidado hein?
Comecei a rir loucamente na porta da sala, até que percebi que as pessoas que estavam no corredor estavam todas rindo de Taylor. É talvez nem todo mundo queira sentar perto dela.
Ainda bem que eu não estava na escola para fazer amigos, já que tenho muitos no Brasil. Eu tenho a Miley. Ela é a melhor amiga que alguém poderia querer na vida.
Mas voltando ao caso da Taylor, é incrível como toda líder de torcida é loira e esnobe. Achei que isso fosse coisa de filme, mas acabei de concluir que não, que isso tudo é muito real, e que daqui a pouco vai vim um monte de caras gigantes, parecendo mamutes musculosos, jogadores de futebol americano que são os namorados das lideres de torcida.
Mas um dia eu ainda revoluciono isso, haha até parece. Eu? Líder de torcida? Acho um pouco difícil, não só pelo meu físico mais também pela minha falta de vontade de ficar pulando com pompons na mão.
Também acabei de concluir que estou ferrada, já no primeiro dia de aula arranjei confusão e ganhei uma inimiga e essa inimiga é ninguém menos ninguém mais que Taylor, a líder de torcida popular que vai provavelmente me ferrar com todo mundo e me encher pelo resto do ano letivo.
Não que eu ligue para essa coisa de ser popular, muito pelo contrário, eu não estou nem aí para essa coisa de ser popular, principalmente porque a maioria das pessoas populares são esnobes e detestáveis. Além disso, elas dizem e acham que tem muitos amigos, porém as pessoas que ficam perto delas só estão com medo de não serem “descoladas” demais e serem excluídas e esculachadas pelos populares, e por isso andam com os mesmos. Eu sei muito bem disso por que... Bom, eu já fui assim antigamente e não quero ser nunca mais como eu era antes. Uma nojenta.
Eu realmente não me importo com isso. Do que adianta ter muitos “amigos” e nenhum deles ser real e durável? É como ter cinquenta facas sendo que o que você realmente precisa é de uma colher. Tudo bem, eu sei que essa comparação não foi muito boa, mas dá para entender.
O que importa é a qualidade e não a quantidade – pelo menos para mim – que isso fique bem claro.
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